terça-feira, 3 de novembro de 2020

04 DE NOVEMBRO DE 1944

 

Fachada do 24th general Hospital em Florença




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4-11-44-Sabado – Pizza e Florence : - Cêdo para o Break. no Hospital: como sempre descalça e calças arregaçadas – Lá, já não tinha nenhum doente nosso – todos evacuados _ Insistimos c/ o major pª irmos salvar nossas roupas – ele não deixou e disse  q. ele iria – enquanto discutia com o capitão  méd. Dr. Adolfo Riedel Ratsbone (meu visinho no Rio 56 –S- Dantes) as nurses tomaram o caminhão e nós tambem fugimos (deixei meu diário e a capa com Olga); ele, qdo viu penso q. ficou furioso!- Lá chegando, tiramos toda a roupa possível (amarrei tudo meu com o cinto e gravata numa alça do caminhão (Tunica de lã c/ tudo de valor dentro) – Nos metemos na agua barrenta até a cintura quasi (já havia baixado +- ½ metro) com auxilio de 1 estaca fui tateando para saltar as valas (Bridges) mas assim mesmo as vezes me afundava nelas

 


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; a nossa “Tenda Paquetá” _ tudo nosso em ordem e pouca cousa molhou porq. estava bem alto _  Arrancamos a porta e tentamos fazer 1 jangada mas quase q. virou e ia molhando tudo; resolvemos carregar 1 por 1 nas costas; assim fiz 6 viagens sempre c/ 1 estaca e conseguí chegar aos caminhões quase sem molhar as malas (porem as dos outros encharcadas inutilizaram a nossa, o nosso cuidado a nossa energia  - Cortei as cordas  dos  sacos pois deixei as chaves na túnica e só tinha 1 tesoura) coloquei o que podia dentro (miudezas q. estavam nos armários e caixotes) tudo tão pesado! Não sei como tive força pª tudo! Deus me ajudou e a todos. Já no fim, não dominava o tremor do corpo – estava roxa – gelada e faltava 1 caixote pesado – resolvi deixar o restante e fui com ele protegida por 1 cobertor, felizmente nesta altura chegou 1 jangada improvisada por Dr. Rupi e outros Dr. Monteirinho bem perto larguei o caixote lá subi, me enrolei no cobertor e me deram 1 cerveja; em meio do caminho por sôrte 1 amfibio chegou mais proximo  e nos tocámos para lá – eu remando com a estaca _ subimos _ me acomodei e comi amendoim e tomei cerveja – as colegas começaram a cantar e muitos americanos tira-



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ram fotografias – Depois de muito esperar, partimos e deixamos os nossos brazileiros da jangada _ no caminhão vimos o caminhão brasileiro tombado e os sargentos e oficiaes Dr. Godo etc com bagagem em tabôas nas aguas – seguimos pª o club _ tratei de me enxugar e mudar a roupa encharcada _ Nisto algumas colegas foram almoçar e nós perdemos a condução _ Por fim Miss Almond me chamou me chamou e a Belem q. estava na porta e fomos ao Mess – descalça sempre – O Dr. Ernestino nos ajudou a descer e a subir – pois voltamos na mesma condução – não tinha + almoço – Dr E. não estava zangado  aparentemente e disse  q. nos procuraria amanhã ou depois pois devíamos seguir pª Florença ás 16hs _ eles ficariam na base _ O club todo molhado das nossas bagagens _ O capt. Serra Campos veio c/ Gipp – trouxe – biscoitos, salchichas _ cigarros, fosforos etc e distribuiu mas eu só vi salchichas! Tirou algumas fotografias _ Os caminhoes chegaram e ordem pª colocar a bagagem _ Foi uma desordem e correria! Tudo meu lá dentro – 6 nurses em cada  ambulancia eu, Helena e mais 4 americanas na 2ª ambulancia _ Miss Almond etc na 1ª _ Quasi 3 hs de viagem – sentia sono e dôr nas pernas todas machucadas  _ As veias do corpo distendidas – Chegamos ao 24º Station  Headquartes 24th, General Hospital (U.S.) A.P.O. 379 ás 17hs e após entendimento  subimos o pavilhão das nurses e fumos

 


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ocupando as camas tripê ao longo do corredôr _ eu e Helena juntas _ as outras ainda não chegaram _ respiramos fundo qdo nos vimos no seco. Gde hospital construido em pavilhões extensos e belos – A major chef nos atendeu em tudo junto a nossa Chief Almond.  Aqui tudo chic _ alinhado – uniforme completo e touca. Todas bonitas e bem uniformisadas – As americanas nos receberam com alegria e carinho – fomos lógo – após Yvone ao room de 3 delas _  Madlock nos encheu de cerveja – chocolate – cigarros etc. e conversamos um pouco_ tratou de oficiaes nossos em Grossetito em agôsto e aqui em frente a sacada estourou 1 mina levando 4 milit pelos ares – Têm muito serviço e dissera q. todos os hospitais para alem de Fl. são  horriveis _ Descemos pª o jantar  - fila bandeja e complemento nas mesas – salão servido por garçonettes e controlado por fina mordoma – subimos e tomamos 1 bom banho frio no qto de 1 delas (nos deu toalhas e sabão) Assim molhada descemos – Aproveito a luz do dinning-room e escrevo enqto todos aguardam os caminhões _ Chegada a bagagem – tive a sorte de achar quem me ajudasse – arrumei a cama – mudei pijama e pretendia escrever qdo deu o sinal de alarme- Tudo apagado – não conseguira dormir e assim foi quasi toda  a noite.

 

TRECHO DATILOGRAFADO POR ALTAMIRA PÓS GUERRA

4-11-44-Sábado – Pisa:– PISA e FLORENÇA – 38th.e 24 General Hospital

Cedo para o breakfast, no hospital: como sempre, descalça e calças compridas arregaçadas. Lá, já não tinha nenhum doente nosso – todos evacuados.

 Insistimos com o major para irmos salvar nossas roupas mas, ele não deixou, e disse que ele iria.

FUGA

 Enquanto discutia com o capitão médico Dr. ADOLFO RATISBONA (meu distinto vizinho no Rio) as nurses tomaram o caminhão e, nós também fugimos (deixei meu Diário e a capa com Olga). Ele, quando viu, já estávamos longe, penso que ficou furioso!?

Lá chegando, tiramos toda a roupa possível: amarrei tudo meu com o cinto e gravata, numa alça do caminhão (túnica de lã com tudo de valor dentro dos bolsos)

Enchemo-nos de coragem e nos metemos na agua barrenta até a cintura quase (já havia baixado creio que meio metro). Algumas colegas não desceram, se limitaram a olhar desanimadas para aquele cenário molhado. Com auxílio de uma estaca, fui tateando para saltar as valas (bridges)que eu mentalmente conhecia o traçado, mas, assim mesmo às vezes me afundava nelas.

A nossa tenda “Paquetá”: tudo nosso em ordem e pouca coisa molhou, porque estava bem alto. Achei que o melhor seria levar aos poucos até ao caminhão, mas Berta quis tentar fazer uma jangada, com a porta que arrancamos. Não deu resultado, quase que virou e ia molhando tudo. Perdendo nosso precioso tempo e nos expondo a longa permanência nesta umidade, de águas contaminadas pelas fossas, lixo das enfermarias, salas de operações, Mess etc. Resolvemos carregar um por um dos volumes, nas costas. Cortei as cordas dos sacos, pois deixei as chaves dos cadeados na túnica e só tinha uma tesoura. Coloquei tudo que podia dentro (miudezas que estavam no armário e caixotes). Assim, fiz 6 viagens, sempre com um bastão tropeçando e me ferindo nas cordas, estacas, pregos, que flutuavam invisíveis, sob as águas escuras, e consegui chegar aos caminhões, quase sem molhar as malas (porém, as dos outros, encharcadas, inutilizaram, a nossa, o nosso cuidado, a nossa energia. Tudo tão pesado! Não sei como tive forças. Deus me ajudou e a todos. Ainda tive ânimo para auxiliar uma nurse, que lutava por erguer sobre as águas a sua mala de lona americana (igual a minha): parecia um chumbo. Tive oportunidade de passar pelas tendas das americanas e ver boiando tanta preciosidade abandonadas, principalmente dentro da tenda de Jeanne. Que fazer? Estava além de minhas forças. Ainda penso que eu e Berta carregamos a mala “A” de helena (que não teve coragem de descer do caminhão). Já no fim, não dominava o tremor do corpo – estava cianótica, gelada e, faltava um caixote pesado. Resolvi deixar o restante e fui com ele, protegida por um cobertor (que estava dependurado no alto). Todos lutavam, cada um de per si para diminuir seus prejuízos e, me olhavam preocupados (com certeza o meu aspecto não era nada bom).

A Jangada improvisada e o Anfíbio

Felizmente nesta altura chegou uma jangada improvisada e dirigida pelos Drs. Rupi e José Monteiro (Monteirinho), bem perto. Larguei o caixote lá, subi, me enrolei no cobertor e me deram um frasquinho de cerveja, que boiava. Em meio do caminho, por sorte, um anfíbio chegou mais próximo e nós tocamos para lá, eu, remando com a estaca. Subimos- me acomodei, comí amendoim e tomei cerveja (coisas fora de meus apetites). Em toda esta tristeza e perigo, tudo correu sem alardes e bom humor. As colegas começaram a cantar e muitos americanos tiraram fotografias. Depois de muito esperar pelos demais, partimos e deixamos os meus salvadores na jangada.

 Vimos o caminhão brasileiro tombado; os sargentos e oficiais tentando amparar a bagagem (o peso fora demais). Dr. Godofredo, nas águas, segurava seus volumes numa taboa e olhava para nós que partíamos.

 Seguimos para o Club. -Tratei de mudar a roupa encharcada e me enxugar. Nisto, algumas colegas foram almoçar e nós perdemos a condução.

Perdemos o almoço

Por fim Miss Almond me chamou me chamou e a Belém, que estávamos na porta e fomos ao Mess: descalças sempre. O Dr. Ernestino nos ajudou a descer e a subir, pois voltamos na mesma condução; não tinha mais almoço.... Ele não estava zangado (aparentemente), e disse que nos procuraria amanhã ou depois, pois devíamos seguir para Florença às 14hs. – eles (oficiais), ficariam na Base. O Club, todo molhado das nossas bagagens. O Sr. Capitão Serra Campos, veio do “QG” num jeep. Trouxe: biscoitos, salchichas, cigarros, fósforos etc e distribuiu, mas eu, só vi salchichas. Criatura boa e distinta. Tirou algumas fotografias.

Os caminhões chegaram. Ordem para colocar a bagagem. Foi uma desordem e correria! Tudo meu lá dentro- as escadarias atravancadas.

Seis nurses em cada ambulância. Miss Almold, etc, na primeira. Helena, eu e mais 4 americanas na segunda. Quase três horas de viagem – sentia sono e dor nas pernas machucadas- as veias do corpo distendidas.

24 th GENERAL HOSPITAL

Chegamos às 17hs no Headquartes 24th. General Hospital (“U.S.A.” A.P.O. 379) e após entendimento subimos ao pavilhão das nurses e fomos ocupando as camas tripé, ao longo do corredor. Eu e Helena, juntas _ as outras não chegaram. Respiramos fundo quando nos vimos no seco. A major chief nurse ........................... nos atendeu em tudo junto à nossa Chief Almond.  Aqui, tudo chic, alinhado – uniforme completo e touca. Todas bonitas e bem uniformizadas. Elas nos receberam com alegria e carinho. Fomos logo ao room de 3 delas. Miss Madlock nos encheu de cerveja, chocolate, cigarros etc. e, conversamos um pouco.  Ela tratou de oficiais nossos em Grossetto, em agosto e disse que aqui, em frente à sacada, estourou uma mina, levando 4 militares pelos ares. Têm muito serviço e disseram que todos os hospitais para além de Florença, são horríveis. - Descemos para o jantar – fila, com bandeja e complemento nas mesas– salão servido por garçonetes e controlado por fina mordoma.

Subimos e tomamos um bom banho frio, no quarto de uma delas que (nos deu toalhas e sabonetes). Assim melhoradas, descemos. Aproveito a luz do dinning-room e escrevo enquanto todos aguardam os caminhões.

Chegaram os caminhões

 Chegaram os caminhões com a bagagem colossal. O saguão da entrada, inteiramente tomado. Foi um custo para descobrir os meus pertences. Parece mentira, mas não houve confusão nem extravio – tudo estava ali, mas pingando... Tive a sorte de achar quem me ajudasse transportá-los, pois as minhas forças estão esgotadas. Arrumei a cama – mudei pijama e, pretendia escrever, quando a sirene tocou o sinal de alarme!

Tudo apagado imediatamente – não consegui dormir e, assim fiquei toda a noite.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS: 

O manuscrito original do autointitulado “Diário de Guerra” - nome que a própria autora (Altamira) dá ao seu diário, encontra-se sob a guarda permanente do “Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. da FEB Altamira Pereira Valadares” e possui dois volumes de encadernação simples. O primeiro compreende o período de 28/08/1944 [com excertos desde o dia 04/08/1944] a 28/04/1945 e o segundo volume, de 29/04/1945 a 22/08/1945. 
Além dos dois volumes manuscritos,  Altamira datilografou outro diário que ela chamou de livro com a sugestão do título ”Febianas”, numa releitura pessoal entre os anos de 1961 a 1970. Foi nesse diário datilografado que a autora inseriu fotos, cartas, desenhos, etc. já com desejo de publicação de seus relatos. Vale ressaltar que entre os diários manuscritos e o datilografado há supressão ou acréscimo de impressões e relatos.

Nota do Centro de Documentação: O texto datilografado por Altamira foi transcrito com a atualização da ortografia, mantendo a integridade das palavras e pontuações, mesmo quando aparentemente foram utilizadas de forma equivocada pela autora.


Copyright©1994-2020 Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref, da FEB Altamira Pereira Valadares. Todos os direitos reservados. Todos os textos e imagens são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual pertencentes ao Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares. 

É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo sem a prévia autorização do Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares.


03 DE NOVEMBRO DE 1944

 

Entrada do Club dos ingleses em Pisa  após a inundação do Rio Arno
Acervo do CDAPV

PÁGINA 162

03-11-44-5ª feira – Piza – Levantei e mal tive tempo para me vestir – ordem pª descer – deixei o pouco q. me resta em completa desordem – Não tem agua pª beber etc. Sinto-me triste – Em caminhões _ molhadas até o joelho fômos todas para o edifício em construção, improvisado em hospital _ Doentes por toda a parte _ misturados as enfermeiras e nações _ no chão em padiolas em camas tripê – uma cousa lôuca – O Break dos doentes saiu tarde e o nosso já havia perdido a esperança e sentia a cabeça estalar qdo

 


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tivemos ordem pª descer e nos alimentarmos na medida do possível (não sei como conseguiram salvar ainda estes alimentos) foi 1 milagre. Ficamos todas distribuídas pelas enfermarias horario de 12hs de 7 as 7. Só uma ficou na O.R __ Foi 1 custo para encontrar os nossos feridos brasileiros – até no porão sotão em cima e cheio d’agua haviam 5 deles – subí por 1 escada e fui até ou o telhado e de lá vi todo o nosso acampamento inundado até o pico das tendas em regiões mais baixas _ só tivemos 1 refeição hoje _ distribuído primeiro cigarros e chocolate pª os pacientes – agua só pª dar medicato e com cuidado! As 16+- foi q. saiu o almoço pª eles e mais nada. O nosso foi +- ás 18hs em 1 fila interminável _ Dr. Ernestino só apareceu tarde qdo um grupo de colegas tentava escapar em um caminhão pª ir ao Hosp. ver si salvava alguma cousa, e não nos deixou sair – voltou na mesma condução c/ uns 20 sargentos nossos e firam ver o q. se podia fazer mas voltara, sem nada conseguir (impraticável a descida – muita agua) – Ficámos tristes – Á noite as q. estiveram de dia voltaram ao club e as outras vieram trabalhar –

 


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O serviço de dia e toda a noite foi evacuar os doentes; primeiro os melhores e por fim os piores. Tivemos uma reunião da chief Nurse Miss Almond: deixar Pizza o mais tardar até amanhã. No club não encontrei meu cantil e dormi com cêde e também a Jeane q. não foi trabalhar se excedeu na bebida e penso q. em outras cousas mais ficou até tarde a falar e a fumar, completamente embriagada (estava neste quarto só com americanas) – Dormi +-

 


TRECHO DATILOGRAFADO POR ALTAMIRA PÓS GUERRA

03-11-44-5ª feira- Cidade de Pisa: – Levantei, e mal tive tempo para me vestir– ordem para descer. Deixei o pouco que me restava- em completa desordem. Não tem agua para beber, etc. Sinto-me triste. Em caminhões, molhadas até aos joelhos, fomos todas para o edifício em construção improvisado em hospital. Doentes por toda a parte, misturadas as enfermarias e nações- no chão, em padiolas, em camas tripê– uma confusão – louca!

O breakfast dos doentes, saiu tarde e o nosso, já havia perdido a esperança e sentia a cabeça estalar, quando

tivemos ordem para descer e nos alimentar, na medida do possível (não sei como conseguiram salvar ainda estes alimentos?), foi um milagre!

Fomos todas distribuídas pelas enfermarias- horario de 12 horas: de 7 às 19 e de 19 às 7hs. Só uma ficou uma na “O.R.” Foi um custo para encontrar os nossos feridos brasileiros– até no sótão, em cima e cheio d’água, haviam 5 deles. Subí por uma escada e fui até ao telhado e, de lá, vi todo o nosso acampamento inundado até o pico das tendas, em regiões mais baixas.

 Só tivemos uma refeição hoje! Distribuído primeiro: cigarros e chocolates para os pacientes. Água, só para dar medicamentos e com cuidado!

Às 16hs, mais ou menos, foi que saiu o almoço para eles e mais nada. O nosso foi mais ou menos às 18hs, em uma fila interminável (nem sei o que nos deram?)...

Dr. Ernestino, só apareceu tarde, quando um grupo de colegas e eu, tentava escapar, em um caminhão, para ir ao hospital, ver se salvava alguma coisa e, não nos deixou sair. Ele mesmo, voltou na mesma condução, com uns 20 sargentos nossos e foram ver o que se podia fazer, mas voltaram sem nada conseguir (impraticável a descida – muita água lamacenta). Ficamos tristes. À noite, as que estiveram de dia, voltaram ao Club e as outras vieram trabalhar.

Encontrei um feridonosso, numa padiola no chão, todo encharcado, imóvel, inconsciente, gelado, parecia morto- não sei quem é- Procurei agasalha-lo bem, após haver retirado tudo que estava molhado e dar-lhe um cordial quente. Graças à Deus, ele começou a respirar mais forte e a se reanimar. É pena que não possa estar ao lado deles nas enfermarias, pois vivo na sala de operações.

O serviço de dia e toda a noite, foi evacuar os doentes: primeiro os melhores e por fim os piores.

Achei no chão um punhalsinho abandonado com as iniciais:? .... VARELA na capa de couro, que guardei de lembrança.

Tivemos uma reunião da chief nurse: deixar Pisa o mais tardar até amanhã.

No club, não encontrei meu cantil e, dormi com sêde e, também a Jeane, que não foi trabalhar se excedeu na bebida e penso que em outras coisas mais (quando fica com saudades do esposo que está combatendo na França)- ficou até tarde a falar e a fumar, completamente no mundo da lua. Estava neste quarto, só com americanas. Dormi regularmente ........

INFORMAÇÕES ADICIONAIS: 

O manuscrito original do autointitulado “Diário de Guerra” - nome que a própria autora (Altamira) dá ao seu diário, encontra-se sob a guarda permanente do “Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. da FEB Altamira Pereira Valadares” e possui dois volumes de encadernação simples. O primeiro compreende o período de 28/08/1944 [com excertos desde o dia 04/08/1944] a 28/04/1945 e o segundo volume, de 29/04/1945 a 22/08/1945. 
Além dos dois volumes manuscritos,  Altamira datilografou outro diário que ela chamou de livro com a sugestão do título ”Febianas”, numa releitura pessoal entre os anos de 1961 a 1970. Foi nesse diário datilografado que a autora inseriu fotos, cartas, desenhos, etc. já com desejo de publicação de seus relatos. Vale ressaltar que entre os diários manuscritos e o datilografado há supressão ou acréscimo de impressões e relatos.

Nota do Centro de Documentação: O texto datilografado por Altamira foi transcrito com a atualização da ortografia, mantendo a integridade das palavras e pontuações, mesmo quando aparentemente foram utilizadas de forma equivocada pela autora.


Copyright©1994-2020 Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref, da FEB Altamira Pereira Valadares. Todos os direitos reservados. Todos os textos e imagens são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual pertencentes ao Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares. 

É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo sem a prévia autorização do Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares.


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

02 DE NOVEMBRO DE 1944

 


PÁGINA 160

2-11-944 – 38th – Pisa – 5ª feira: Dormi até 10 hs fiz café e tomei. Tenda uma desordem – restos de sandwiches – garrafas cerveja – copos, pratos, flores tudo espalhado – Sempre triste – “Dia de Finados”: Ás 12hs,00 almoço – Depois estive revendo uns caixotes: tudo roído por ratos etc (meu macacão está c/ 1 grde buracos nas costas). Eu e Helena acendemos 1 vela para os mortos e defumamos toda a tenda.  O meu tablete queimou imediatamente – Quando já estava pronta pª trabalhar o Mj. Ary mandou me chamar Fui lógo – estava o Cel M. Pôrto. me cumprimentou com toda elegancia e atenção: deu-me pêsames – mandou-me  sentar e perguntou como ia: estavam os Mjs Ernestino e Ary presentes: disse-lhe  q. estava muito triste e q. queria a minha transferência pª a Aeronautica – ficaram surpresos – desejo lhe falar-lhe a sós _ eles sairam: ahi disse-lhe tudo que tenho passado desde o 1º dia exército até a minha punição _ esperasse que tudo ia ser desfeito e q. de hoje em diante ficaria sob os cuidados deles – ando muito contrariada e por pouco não chorei _ Vim para o serviço 15hs,15 _ falei com os sargentos Gabriel e Octaviano _ acabei chorando  - nisto chegou Jura e eu disfarcei - fui–a tenda _ ajuntei minhas cousas e voltei _ Dei as medidas das calças pª Oct. Levar a Pizza – Passei roupa –

 


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Entrou 1 italiana com ferito no pé (cousa ligeira) 18hs jantar – Reunião ás 19,15 no mess – meeting: Officers e Nurses all _ Todos reunidos o Cel Wood falou depois do nosso mjor Ernestino transmitiu as ordens: inundação do rio arno – pontes e barragens destruídas – turma engenheiros trabalhando pª ver si empéde a chegada das aguas até aqui _ Ordem de evacuação pelo auto-falante – deixar bagagem maior no alto – carregar só o indispensavel _ manter-se nos postos  e não dar a perceber os doentes da gravidade situação – acomodação se possível  em Edifício de Pizza __ por isso q. o nosso acapamento não se póde quasi andar  - só lama  e os corregos já transbordando _ São 20,20 – Tem 1 brasileiro encharcado e tossindo no shock vae pª a 3 ward. esta irritado _ Hoje estourou muito será minas? De repente me vi só na S.O. tudo tinha saído – inundação já aqui – só tive tempo de colocar o q. é meu em caixotes bem no alto – apanhar o embornal capacete – e cama rõlo e dar o fóra com o coração partido deixando tudo – fui uma das ultimas a tomar o caminhão – muitas colegas só trouxeram a roupa do corpo; tudo isto feito em silencio, no escuro e rápido _ Os doentes e sala

 


PÁGINA 162

 de operações evacuados primeiros- Agua crescendo pavorosate: na parte baixo já as tendas e enfermarias mergulhadas até quasi a cabeça_ Com grde dificuldade vencemos a correnteza deixando para atraz ambulancias e outros transportes com doentes sem poder atravessar a agua. Deixei tudo inclusive as 2 malas novas com belas e valiosas lembranças, fóra toda bagagem de roupas  etc. Chegamos ao Club onde desci nas costas dos boys americanos com agua até a cintura - Ficamos até tarde aguardando a chegada das outras e muitas, nós não vimos – toda molhada – deitei-me as 24hs no chão na cama de rôlo numa sala com 2 americanas-  muito frio e inquietação - Quasi q. foi um dia de Finados também para nós. Porém graças á Deus penso q. saímos todos-

 


TRECHO DATILOGRAFADO POR ALTAMIRA PÓS GUERRA

2-11-44-5ªfeira-Pisa: Dormi até 10hs. Tenda em desordem: restos de sanduiches- garrafas cervejas vazias – copos- pratos- flores, tudo espalhado. Sempre triste. “Finados, Dia dos Mortos”. Meu pensamento voava para o Brasil, num profundo preito de saudade e, em silêncio orava por todos entes queridos mortos e por todos que aqui tombaram, sacrificando suas preciosas vidas, em busca da Paz.

 Depois do almoço estive revendo uns caixotes: tudo roído por ratos etc (bichos do mato). Meu macacão está com um grande buraco nas costas.

Helena e eu acendemos uma vela para os mortos e defumamos toda a tenda. (o meu tablete queimou imediatamente).  Quando já estava pronta para trabalhar, o Mj. Ary mandou me chamar. Fui logo. Era o Cel. M. Pôrto (o nosso chefe), com quem desejava falar. Cumprimentou-me com toda elegancia e atenção. Deu-me os pêsames– mandou-me sentar e perguntou como ia. Estavam presentes os Mjrs. Ernestino e Ary. Disse-lhe que estava muito triste, magoada e que queria a minha transferência para a “Aeronáutica”. Ficaram surpresos e viram nisto um ato de insubordinação, pois ignoravam eles que de há muito (ainda no Brasil), fora este o meu desejo. Não queria deixar de servir, mas em outro setor. Peço-lhes licença para falar a sós. A UM SINAL DO Sr. Cel. Eles saíram. Ahi, então, desabafei: disse-lhe tudo quanto tenho passado, desde o 1º dia exército até a minha punição. Ouviu-me calado e depois me disse: “que tivesse calma, paciência. Esperasse que tudo ia ser desfeito e que de hoje em diante ficaria sob os seus cuidados. Quanto à transfer~encia, só poderia encaminhar o meu ofício de solicitação ao Ministro de Guerra”. As suas palavras produziram o efeito de um bálsamo refrigerando a minha alma feridae, ergueram minhas forças para prosseguir na pior guerra, justamente a que não contava, a GUERRA DOS NERVOS! Ando muito contrariada, tremia como vara verde, por pouco não chorei. Só sei que não podia falar mais nada. Sentí os olhos marejados de lágrimas e uma opressão na garganta. Sem poder dizer mais nada para que as lágrimas não me traíssem, saí e, vim para a sala de operações às 15hs,15’. Falei com os sargentos Gabriel e Octaviano e não pude me conter- acabei chorando. Oh! Deus, dai-me forças para suportar as leis dos homens, porque as Tuas eu as suporto, porque são justas! Nisto chegou Jura e, eu disfarcei- fui à tenda- apanhei meus objetos e voltei.

Entrou uma italiana com ferimento de pé (coisa ligeira). Após o jantar, às 19,15’ reunião no Mess:

 Meeting: Officers e Nurses all _

Todos reunidos Coronel Dr. GEORGE T. WOOD, comandante do 38th EvacuationHospital, falou e, depois o nosso chefe,  major Dr. Ernestino, transmitiu as ordens:

INUNDAÇÃO DO RIO ARNO

Pontes e barragens destruídas – Turma de Engenheiros trabalhando para ver si impede a chegada das aguas até aqui.

Ficássemos atentos ao SINAL DE ALARME, ordem de evacuação, pelo auto-falante, caso tal aconteça.

Deixar bagagem maior no alto – carregar só o indispensável (de preferência agasalhos).

Manter-se nos postos os que estivessem em serviço e, não dar a perceber aos doentes, a gravidade da situação.

Acomodação se possível em Edifícios de Pisa.”

Não sei porque, uma coisa me diz que isto é sabotagem?... É por isso que quase não se pode andar no nosso acampamento: só lama e os córregos (valas artificiais) já transbordando... Pedi às colegas que quando elas acabassem de se preparar, uma delas viesse me substituir por uns instantes, para que eu pudesse fazer o mesmo, mas ninguém apareceu.......

São 20,20’ – Tem um brasileiro encharcado e tossindo no shock -vai para a Ward 3- está irritado! Hoje estourou muito- serão minas?

Não ouviu o ALARME...

Os doentes e sala de operações evavuados primeiros. Sentia as tabuas do assoalho se elevando do solo, fluturando sobre as águas. Íamos pulando de um tablado para outro, com os pacotes e caixas de material cirúrgico, até chegar junto ao caminhão gigante, na porta da tenda. Parece incrível, mas, tudo isto foi feito em silêncio, no escuro e rápido.

 De repente, me vi só na S.O. quase vazia - Todos tinham saído. Inundação já aqui. Só tive tempo correr, já nas águas, colocar apressadamente o que é meu em caixotes bem no alto. Apanhar o embornal, meu Diário, o capacete, mas não aguemtava a cama rolo. Por milagre o Capitão De Cello estava ali, sempre prestativo – não havia tempo a perder – As colegas me gritavam lá do caminhão último, pois a tenda ficava longe, era a ultima, bem no alto. Ele capitão, nem pestanejou, colocou o rolo no ombro e descemos até o caminhão, onde as águas já subiam. Fui uma das últimas a tomar o transporte.

     Com o coração partido demos o fora, e deixamos tudo de belo e precisoso, que vinhamos coletando. Muitas colegas só trouxeram a roupa do corpo. Agua crescendo pavorosamente: na parte baixa, já as tendas e enfermarias mergulhadas até quase a cabeça. Com grande dificuldade vencemos a correnteza, deixando para trás ambulâncias e outros transportes com doentes sem poder atravessar aquele mar de águas lamacentas. Deixei tudo, inclusive as 2 malas novas com belas e valiosas lembranças, fora toda bagagem de roupa, calçados etc. Chegamos no Club dos Oficiais Ingleses, em Pisa, onde desci, lá dentro, nas costas do boy americano, com água até a cintura. Ficamos até tarde aguardando a chegada das outras e, muitas, nós não vimos; com certeza foram para outro lugar. Estamos aos montes. O pessoal do club, se acomodou num só compartimentoe nós invadimos tudo. Descobri numa das paredes do corredor, um armário embutido: era a geladeira deles, repleta de quitutes gostosos. Não resisti e às escondidas meti os dedos nas travessas e saí disfarçadamente. Toda molhada. Deitei-me a meia-noite, no chão, sobre a cama rolo, numa sala, com outras americanas. Muito frio e inquietação.

     Quase que foi dia de “Finados”, também para nós. Porém, graças à DEUS, penso que saímos todos!


INFORMAÇÕES ADICIONAIS: 

O manuscrito original do autointitulado “Diário de Guerra” - nome que a própria autora (Altamira) dá ao seu diário, encontra-se sob a guarda permanente do “Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. da FEB Altamira Pereira Valadares” e possui dois volumes de encadernação simples. O primeiro compreende o período de 28/08/1944 [com excertos desde o dia 04/08/1944] a 28/04/1945 e o segundo volume, de 29/04/1945 a 22/08/1945. 
Além dos dois volumes manuscritos,  Altamira datilografou outro diário que ela chamou de livro com a sugestão do título ”Febianas”, numa releitura pessoal entre os anos de 1961 a 1970. Foi nesse diário datilografado que a autora inseriu fotos, cartas, desenhos, etc. já com desejo de publicação de seus relatos. Vale ressaltar que entre os diários manuscritos e o datilografado há supressão ou acréscimo de impressões e relatos.

Nota do Centro de Documentação: O texto datilografado por Altamira foi transcrito com a atualização da ortografia, mantendo a integridade das palavras e pontuações, mesmo quando aparentemente foram utilizadas de forma equivocada pela autora.


Copyright©1994-2020 Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref, da FEB Altamira Pereira Valadares. Todos os direitos reservados. Todos os textos e imagens são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual pertencentes ao Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares. 

É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo sem a prévia autorização do Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares.

domingo, 1 de novembro de 2020

1º DE NOVEMBRO DE 1944

 

Nossa Senhora de Monte Serrat

PÁGINA 158

1º Novembro Dia de “Todos os Santos” – 4ªfeira 38P. – Não fui ao Break. fiquei na cama até 11hs _ Faz frio- chove – para faz sol – lama – Dia de Todos os Santos – Ouve-se os sinos da Catedral de Pizza – Os aviões roncam baixinho nos ceos densos de chuva, o dia todo_ De vez em qdo ouve-se o estouro de minas – Fui almoçar e trouxe sandwiche pª Helena; ela trouxe café pª mim de manhã _ Fui falar c/ Mj. Ernestino – paguei-lhe as 500 lrs dei-lhe 1 porta retrato pª filha dele; pedi-lhe q. entregasse ao Cel M.P. as 2.000 lrs q. ele me emprestou, junto a um recado_ Hoje aniversario Bertha – Encomendamos flores e 1 bôlo e até 15hs, nada _ Providenciei manteiga e pão pª sandwiche _ Helena e Iole (1 brasileira italiana = Iole Francesconi – Via Sarzanese nº 74 – S. Anna Lucca) que veio trazer lindas flores pª B. está ajudando a preparar a mesa _ Berta feito creança está com a cama toda branca e vae colocando os presentes _ parece minha sogra _Cumprimentei Dr. Godofredo Freitas q. tbem faz anos hoje _ Fui á Igreja e pedi a Deus por mim e por todos q. me fazem mal e bem _ Li fervorosamente a prece de N.S.Montesserrate” – No caminho

 


PÁGINA 159

encontrei Dr. G.F e W.Santos querendo 200 lrs pª 1 festa aos americanos – ando triste e não sei o q. fazer – a minha vontade é deixar tudo isto q. não vale nada e não merece nada _ Tambem vi o Tte Amaro (amigo Braz) q. vinha num gip com flores pª Berta. Entrei em serv. na O. R. ás 15hs aparelhos gessados etc. serv.  americanos. Nossos nada. Chove sempre- A nossa tenda esteve sempre repleta de gente hoje _ entra e sae _ oficiaes americanos e brasileiros inclusive o Exmo. Gel Boanerges Lopes do supremo Tribunal, que deixou seu autografo em meu livro – Carmita e Cid tambem  vieram tomar 1 serveja com Berta – ela está contente – ganhou lindas flores e belos presentes. Tambem houve shochs de namorados! As 18hs jantar – Dr. Estelita Lins também esteve aqui; vae ficar em Livorno. Preparei mesas porq. de repente entrou um grupo de feridos americanos. Paguei Carmita 2.000 lrs e fiquei devendo 2.000. O sargento Octaviano me deu meus cartões postaes pª Natal. Nada que fazer e não tenho coragem pª escrever cartas. Comecei 1 para o mano Berto e tive q. parar porq. chegou ferido _ As 23hs,00 mess e depois tenda

 


TRECHO DATILOGRAFADO POR ALTAMIRA PÓS GUERRA

1º de 11 de 44–4ªfeira-Pisa:– Helena trouxe café para mim. Fiquei na cama até 11hs.

Faz frio- chove- para- faz sól- lama.

DIA DE TODOS OS SANTOS

Ouvem-se o bimbalhar dis sinos da catedral. Os aviões roncam, baixinhos nos céus densos de chuva, o dia todo. De vez enquanto ouvem-se os estouros de minas. Fui almoçar e trouxe sandwiches para Helena. Fui falar com major Ernestino: paguei-lhe as 500 lrs. e dei-lhe um porta-retrato que havia comprado para a filha dele. Pedi-lhe que entregasse por favor, ao Cel. M. Porto, as 2.000 liras, junto a um recado. Hoje

ANIVERSÁRIO DE BERTA E DE DR. GODOFREDO

Encomendamos flores e um bolo e até 15hs nada. Providenciei manteiga, pão para sandwiche. Helena e Yole Francesconi (uma brasileira- filha de italiano, residente na Via Sarzanese, 74–S.Anna Lucca), que veio trazer lindas flores, está ajudando a preparar a mesa. Berta (feito criança), está com a cama toda branca e vai colocando os presentes (parece minha sogrinha). Cumprimentei Dr. Godofredo que também faz anos hoje. Fui à Igreja e pedi a Deus por mim e por todos, que fazem mal e bem. Li fervorosamente a prece de “N.S.Montesserrate”. No caminho encontrei Dr. G. Freitas e W.Santos querendo 200 liras para uma festa de cordialidade que vão oferecer aos americanos. Ando triste e não sei o que fazer. A minha vontade é deixar tudo isto, que não vale nada e não merece nada.

Também vi o Tem. Amaro que vinha num jeep, com flores para Berta.

Entrei em serviço às 15hs. -Aparelhos gessados etc. Serviço só para os americanos. Chove sempre.

A nossa tenda repleta de gente- entra e sai - oficiais americanos e brasileiros, inclusive o Exmo. Sr. Gel. Boanerges Lopes (do Supremo Tribunal Militar), que nos honrou com sua visita e, deixou seu autógrafo em meu livro. Carmita e Dr. Cid também  vieram tomar uma cerveja. Paguei-lhe 2.000 liras, restam outro tanto.

 Berta está contente. Ganhou lindas flores e belos e preciosos presentes. Também houve shochs de .........! Às 18hs jantar. Major Dr. Estelita Lins também esteve aqui; vai ficar em Livorno.

Preparei mais mesas porque de repente entrou um grupo de feridos americanos. O sargento Octaviano, me deu uns cartões postais, para Natal. -Nada que fazer e não tenho coragem para escrever. Comecei uma carta para o mano Berto (Adalberto), e tive que parar porque chegou ferido. Às 23hs Mess. Depois tenda..............................


INFORMAÇÕES ADICIONAIS: 

O manuscrito original do autointitulado “Diário de Guerra” - nome que a própria autora (Altamira) dá ao seu diário, encontra-se sob a guarda permanente do “Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. da FEB Altamira Pereira Valadares” e possui dois volumes de encadernação simples. O primeiro compreende o período de 28/08/1944 [com excertos desde o dia 04/08/1944] a 28/04/1945 e o segundo volume, de 29/04/1945 a 22/08/1945. 
Além dos dois volumes manuscritos,  Altamira datilografou outro diário que ela chamou de livro com a sugestão do título ”Febianas”, numa releitura pessoal entre os anos de 1961 a 1970. Foi nesse diário datilografado que a autora inseriu fotos, cartas, desenhos, etc. já com desejo de publicação de seus relatos. Vale ressaltar que entre os diários manuscritos e o datilografado há supressão ou acréscimo de impressões e relatos.

Nota do Centro de Documentação: O texto datilografado por Altamira foi transcrito com a atualização da ortografia, mantendo a integridade das palavras e pontuações, mesmo quando aparentemente foram utilizadas de forma equivocada pela autora.


Copyright©1994-2020 Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref, da FEB Altamira Pereira Valadares. Todos os direitos reservados. Todos os textos e imagens são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual pertencentes ao Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares. 

É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo sem a prévia autorização do Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. Ref da FEB Altamira Pereira Valadares.