sábado, 1 de maio de 2021

01 DE MAIO DE 1945

 

O corpo de Mussolini (segundo a partir da esquerda) próximo a Petacci (no meio) e outros fascistas na Piazzale Loreto, Milão, 1945
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Morte_de_Benito_Mussolini#/media/Ficheiro:Mussolini_e_Petacci_a_Piazzale_Loreto,_1945.jpg

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_Procuro relembrar os últimos acontecimentos __As 10hs,50 partimos num longo comboio sendo q. o nosso caminhão puxava o mais importante reboque: o traylor do Cel Comandante americano _ iamos atraz: eu, Carmem, Jacyra Neuza, 3 medicos americanos e parte de bagagem a viagem foi acidentada devido ao traylor e tivemos q. parar por varias vezes _ a saída de Marzabotto foi linda e a cada passo se descortinava aspectos deveras interessantes: Vimos o castello do Conde Pompeu Aria lá no alto. Muitas residências nos altos dos montes – junto às estradas constantemente desviadas por causa das pontes destruídas só víamos ruinas: tudo destruído _ não resta cousa alguma aqui – Há 1 rocha enorme q. avança pª o rio – verdadeiro forte inquebrantavel dos tedescos: repleta de casa-matas (só mesmo a falta de aviação – combustível e alimento os faria sair dali) Calculo só o qto não sofreu o povo e os nossos aliados nesta luta titânica pª os expulsar dali- Há 5 ktos a saída de Marzabotto cuja saída por largos portos imponentes ostentando de cada lado 2 gigantescas estatuas de 1 homem

 

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e 1 mulher, romanos. Na arcada está escrito museu Arqueologico _ Senti não ter tido tempo e disposição para fazer um reconhecimento ao redor pª o meu diário _ Ha 5 ktos adiante passamos pelo celebre tumulo de Guilherme Marconi (inventor do Radio) Durante toda a viagem um avião acompanhava nos ares – fômos passando por pequenas povoações e tbem grandes cidades – Parámos em meio pª o lunch (sandwiche de queijo e carne de lata) só mesmo a fome me faria comer o q. tenho comido até a ultima migalha! _ Pelos caminhos sempre passavam caminhões de tedescos prisioneiros – Qdo passamos por “Amodena” (bela, grande, interessante cidade) estava toda embandeirada (vermelha – branco e azul) Todos nas ruas prontos pª a + importante parada pois vimos nisto claramente a terminação da guerra: havia até partisanos e moças italianas q. corajosamente lutaram e sofreram pela libertação da Italia, do Fascismo. Foi grande nossa surpresa e comoção! _ Num trecho da cidade vimos um campo de concentração: verdadeiro formigueiro de prisioneiros tedescos além de grde nº de ambulancias deles Tbem capturadas parecendo 1 lenço imenso pois são grandes e brancas. O movimento pela cidade é desusado – tudo delira-se Nibra de

 

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Contentamento _ depois passamos ao longe, apenas pelos arredores e subúrbios da grande e majestosa “Bologna” (senti não conhece-la de perto) só tive apenas a impressão distante do seu valôr! Continuamos. pela rota 9 até chegar em “Parma”, deixando pª atraz varias cidades que já esqueci os nomes – apenas me recordo de: “Regio” Cultelbranco, Montécchio (onde está o Q.G.) A nossa passagem pelas ruas de Parma fomos acolhidas com palmas e cumprimentos calorosos e todos faziam com os dedos o V simbolico da Vitoria. Foi uma alegria tão grande e uma satisfação nos invadiu e nos encheu de animo e coragem pois já vinha sentindo o cansaço e a saudade extrema e a vontade louca de voltar para casa (longe das nojeiras, dos ambiciosos, dos invejosos e de tudo o mais q. é mesquinho e nos envolve nesta guerra sangrenta _ Vimos claramente q. tudo havia terminado e em todas as casas flamejava a bandeira italiana – O povo de Parma aclamava as nossas tropas q. ocuparam a sua cidade e expulsaram os seus opressôres. Ás 16hs,00 justa (5hs de viagem) chegacamos exhaustos á Fidenza – Passamos em todo o percurso por campos e vales flo-   

 


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ridos, cultivados e marginados por arvores frutíferas, vinhedos, arvores altíssimas e interessantes, ciprestes enormes. O acampamento se instalou como sempre distante da cidade, num vasto gramado alto até ½ metro _ Tudo ainda por armar – Nós ccobertas de poeira e eu sentindo dôr de cabeça e 1 vontade louca de tomar café __ enquanto esperávamos armas as tendas fômos á Yvone (a primeira já pronta) Depois chegou o Cel borba e deu á cada uma um distintivo tedesco (gostei muito). A nossa tenda nº5 foi a ultima _ de bagagem nem sombra pois a nossa chefia ainda está em fraldas nesta questão de organisação, somos o caçulinha dos americanos. Faltava agua e nos ageitamos ligeiramente pª o jantar – antes porém eu, Helena e Elita comemos o restante de fiambre c/ limão _ A minha cabeça doia – fômos pª o jantar – longa fila ao relento – tudo ao ar livre sem cobertura e sentamo-nos nos volumes e caixotes espalhados por perto _ O jornal correu e deu a noticia oficial do fuzilamento de Mussolini pelos partisanos e possível colapso Germanico _ Cada vez me animo e encho de coragem pª suportar o fim da jornada que já está penosa – Jantei e fui lógo

 

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pª a 3ª Ward pensando q. havia reunião conforme Bertha avisara mas vi q. era preparar camas e salas operações e desisti de tudo pois sentia-me mal  a cabeça estourando, náuseas (foi a carne esfiapada – tudo de ração!) Procurei aflita a minha cama apenas e, Santos e DR. Aurecury carregaram pª mim _ Deitei-me como estava – tudo em desordem e lógo me pús a vomitar _ enchi lata e sobrou sobre o matto. (ficou um cheiro ácido e eu sem coragem pª nada – pedi as colegas pª ver minha bagagem – elas coitadas exhaustas, fizeram o q. puderam pois veio a noite, tudo escuro e acabei perdendo parte do q. era meu principalmente os moveis _ não tive 1 remedio para tomar e me contentei c/ agua do cantil. Passei pª Jacyra um lenço estampado di Bologna por 900 liras q. o sargento comprou lá _ Caiu a noite gelada escura e o cansaço extremo nos lançou nas camas de qualquer geito (cheia de pó e lama seca)

 

2º DIÁRIO

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3ª feira – 1º de maio 45: 38th Evac. “Parrolla” _ As colegas acordaram atrasadas pª o breakfast e Helena ainda me trouxe café e pão pois não senti coragem pª ir lá – Fiquei na cama até 10hs,00 – nem liguei para nada – Veio Dr. Reis me chamar pª

 


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dar a relação das 3 canastras cirúrgicas _ Resolvi me levantar _ ageitei o q. pude; me vesti e fui lá na secretaria – procurei o q. me faltava e nada _ ninguem ligou _ Lamentei ter ficado doente – só encontrei minha mala A jogada no mato; o resto perdi a esperança! Depois do almoço (já no Mess), ás 13hs fui ao nosso suppy com Dr. Reis e trabalhamos até 18hs,30 para anotar todo o material cirúrgico pª entregar ao Mjor Ary. Dr Godô teve 1 caso pª operar mas nós não fômos; estávamos ocupados. Dr Ratsbone esteve aqui! Trouxe 4 cartas: 2 de Aurea (ótimas noticias), 1 de Lavinia e outra Arminda. Só tive tempo pª lé-las depois do jantar q. já ia perdendo e só ganhei o sôbre magro da galinha. Fui receber o jornal q. traz a notícia do Gel Clark sobre a virtual eliminação da resistencia germanica ma Italia. Todos contentes e já crentes q. vão voltar pª o Brasil. Escrevo tudo isto às pressas e gelada de frio _ Tudo meu sujo e em desordem _ Soube q. G. está aqui pertinho em Parma _ Hoje pela manhã me sentia melhor da cabeça pois veio o chico. Passei o dia todo com tampão.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS: 

O manuscrito original do autointitulado “Diário de Guerra” - nome que a própria autora (Altamira) dá ao seu diário, encontra-se sob a guarda permanente do “Centro de Documentação da II Guerra Mundial Cap. Enf. da FEB Altamira Pereira Valadares” e possui dois volumes de encadernação simples. O primeiro compreende o período de 28/08/1944 [com excertos desde o dia 04/08/1944] a 28/04/1945 e o segundo volume, de 29/04/1945 a 22/08/1945. 
Além dos dois volumes manuscritos,  Altamira datilografou outro diário que ela chamou de livro com a sugestão do título ”Febianas”, numa releitura pessoal entre os anos de 1961 a 1970. Foi nesse diário datilografado que a autora inseriu fotos, cartas, desenhos, etc. já com desejo de publicação de seus relatos. Vale ressaltar que entre os diários manuscritos e o datilografado transcrito até metade do dia 18 de dezembro de 1944,  há supressão ou acréscimo de impressões e relatos.

Nota do Centro de Documentação: O texto datilografado por Altamira foi transcrito com a atualização da ortografia, mantendo a integridade das palavras e pontuações, mesmo quando aparentemente foram utilizadas de forma equivocada pela autora.

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